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quarta-feira, 20 de novembro de 2024






Só quem é “mãe/pai de planta” sabe como é triste ver uma plantinha morrer. Ela estava lá, enfeitando a estante, cheia de vida, e de repente começa a amarelar, a murchar… Você tenta de tudo: muda de lugar para pegar mais sol, lembra de regá-la com mais frequência, mas nada adianta. E aí vem a dúvida: será que exagerei na água? Será que faltou adubo?

O problema, porém, estava muito além do que eu podia imaginar. Estava escondido embaixo das pedrinhas que coloquei para decorar. Lá, na terra escura, a raiz começou a apodrecer, e eu nem sabia. Nem dava para ver, nem passava pela minha cabeça. Se plantas falassem, será que ela pediria minha ajuda? Me contaria o que de fato precisava? Não sei...segui o básico do manual dos jardineiros amadores e continuei cuidando mesmo assim. E essa plantinha, que não me dava trabalho nenhum no início, morreu.

Deixei ali por um tempo, pensei "ah, quando tiver tempo eu tiro dali, não tá me fazendo mal mesmo, vai que um dia resolve brotar"... Mas hoje de manhã, ao olhar para ela, estava ainda pior: tinha bichinhos nascendo, várias formigas e com um cheiro horrível, ver aquilo começou de fato a me fazer mal. Não tem mais jeito. Vou ter que jogá-la fora. Morreu de vez. O que me resta de lembrança são as fotinhos dela verdinha, cheia de vida...uma pena.

Pelo menos hoje é quarta-feira, dia que passa o caminhão de lixo.

sexta-feira, 15 de novembro de 2024



É meio surreal estar escrevendo isso, mas sinto que, pela primeira vez em muito tempo, voltei ao meu eixo. Como muita gente próxima sabe, eu passei por uma fase bem conturbada que começou lá em 2016, quando meu pai faleceu. Durante muito tempo, tentei não enxergar isso como o marco que mudou minha vida, mas a verdade é que foi. Parece que existem duas versões de mim: antes e depois da perda. E como eu descreveria essa "nova versão"?

De forma simples, diria que me senti como um pintinho forçado a crescer rápido, tomando hormônios para se fortalecer antes do tempo. Foi como pular etapas importantes da vida. Desde então, parecia que nada dava certo. Pelo menos era assim que eu enxergava. Sempre faltava algo, e todo esforço de sobrevivência parecia insuficiente. E acho que essa é a palavra exata: sobreviver. Porque viver, de verdade, foi algo que ficou em segundo plano. Inclusive, relendo alguns textos daqui do blog de 2021, vejo que era uma preocupação a maneira como eu vinha levando a vida modo survival…e realmente não me dediquei a mudar isso.

Não posso dizer que não aproveitei coisas boas ao longo do caminho, aproveitem sim, mas sempre foi com uma sombra atrás de mim. Uma sombra que eu mesma criei, julgando cada escolha, com medo de errar ou projetando minhas inseguranças em como seria vista, o que achariam de mim. Eu sentia que, dali em diante, era só eu comigo mesma. Bom, na verdade, era e sempre foi. Só que o peso de falhar era sempre dobrado. Na minha cabeça, eu pensava: "Se meu pai estivesse aqui, ele não aprovaria, ou não seria desse modo...” Achava que não sabia ser uma adulta exemplar/funcional por conta própria.

E como lidar com esse peso enquanto a depressão e a ansiedade te sufocam? Em dias em que você só quer existir, parece que precisa de uma energia 10x maior só para atravessar UM único dia. Tudo é intenso demais, grande demais, pesado demais. E aí você soma isso ao fato de eu ser uma pessoa altamente sensível, onde sentimentos e emoções são sentidos e levados em consideração em uma proporção absurda.

Sentia como se eu fosse uma panela de pressão no fogo, pronta para explodir. Desde 2016, sinto que venho correndo uma maratona interminável, com algumas pausas entre colinas e vales. Mas só agora, 8 anos depois, percebo que não deveria ser assim.

Se eu fizesse uma linha do tempo, os momentos mais marcantes seriam: a morte do meu pai, trancar a faculdade, virar empresária e arrimo da família, perder minha avó, tomar a decisão mais difícil que foi fechar a empresa criada pelo meu pai, voltar a estudar, lidar com um luto tardio que me levou à depressão, me formar, encerrar um relacionamento de 5 anos à distância, enfrentar a pandemia sem ter muita renda, mergulhar em um relacionamento curto durante a pandemia, terminar esse relacionamento, ter meu carro roubado, entrar em outro relacionamento no fim da pandemia, ficar desempregada por cinco meses, começar uma nova profissão, tentar conciliar duas carreiras e, por fim, encerrar mais um relacionamento, este de quase 3 anos.

Você pode se perguntar: "Por que relacionamentos amorosos são tão marcantes para você?" Porque é neles que me permito ser mais vulnerável, onde me mostro por inteira. Quando acabam, é realmente um luto pra mim. É uma ferida no ego, uma sensação de que não fui aceita na minha versão mais sincera e crua e daí pra frente, só pra trás.

Depois de tudo isso, sinto que agora, finalmente, consigo respirar. Consigo olhar para trás e perceber o quanto foi difícil, o quanto tive que aprender a lidar com tudo sozinha: questões financeiras, jurídicas, minhas próprias incertezas, sabendo que qualquer decisão impactava não só a mim, mas também minha mãe. Foi uma corrida de perdas e ganhos.

Antes de 2016, eu sentia que tinha uma base forte, alguém a quem recorrer. Depois disso, simplesmente fui... do jeito que deu, alternando entre meus melhores e piores lados. Meu maior erro foi ignorar o que se passava dentro de mim. Eu me forcei a ser forte o tempo todo, como se não tivesse o direito de pedir ajuda, condenando demais meus erros. Contava com terapia e amigos para aliviar um pouco, mas ainda assim carregava o peso de tentar ser exemplo, de não preocupar ou demonstrar fraqueza.

Agora, em novembro de 2024, finalmente sinto que estou abrindo a tampa dessa panela de pressão. Pela primeira vez, estou olhando para mim mesma com mais carinho, reconhecendo meu valor e me auto validando. Durante muito tempo, busquei a validação dos outros, como se só assim minha existência tivesse sentido. Era como se eu precisasse provar meu valor a todo momento, vivendo como alguém que busca argumentos para defender sua própria tese.

Hoje, percebo o quanto isso me desgastou. Aprendi que preciso reconhecer minhas próprias marcas de guerra, mesmo que nem sempre goste delas. Elas fazem parte de quem sou. Meu corpo mudou, minha maneira de lidar com a vida também. E ai de tanto olhar pra fora eu olhei pra dentro e me perguntei ˆo que estou fazendo por mim, para mim?” Para algumas pessoas isso pode ser algo tão simples de enxergar, principalmente se não tiverem tantas preocupações rondando a cabeça 24/7...pra mim, pensar em mim vinha em segundo plano, meu instinto protetor me fazia olhar e cuidar de quem estava a minha volta e só.

Minha jornada até os 32 anos foi dura e cheia de aprendizados. Aprendi que não posso me abandonar, por nada nem ninguém. Não devo mendigar amor, afeto ou reconhecimento. Tudo isso precisa começar em mim. Parar, respirar e me cuidar. A cruz que carrego não pode ser depositada em pensamentos destrutivos, compulsões ou vícios. Preciso respirar e continuar, vivendo a autoaceitação, o autocuidado e o amor próprio.

Tudo é um processo. E finalmente estou disposta a vivê-lo plenamente.

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Eleanora Fagan Gough, conhecida pelo nome artístico Billie Holiday, ou Lady Day, é mais do que uma lenda da música. Com sua voz marcante e carregada de emoção, ela atravessou décadas e transformou o jazz em uma plataforma de luta e denúncia. Nasceu em 1915 e viveu uma infância difícil, sua mãe, uma adolescente solteira, não tinha condições de cuidar dela, e Billie foi enviada para um orfanato. Aos 10 anos, começou a trabalhar em bordéis e casas de show, onde sofreu abusos e foi vítima de violência sexual.

Aos 14 anos, foi presa por prostituição e, em sua juventude, enfrentou o racismo nas ruas de Nova York. Mesmo diante de tantos traumas, Billie não se deixou sucumbir. Sua trajetória antes da fama foi uma verdadeira luta pela sobrevivência, mas foi também o que a moldou como artista.

Billie transformou as cicatrizes da vida em arte, e sua música, além de revolucionária, se tornou uma poderosa ferramenta de denúncia. Ela não só enfrentou os preconceitos da época, como também usou da sua notoriedade para dar voz a todos aqueles que, como ela, eram invisíveis para a sociedade.

Sua interpretação de Strange Fruit foi um marco na música, denunciando o racismo brutal dos Estados Unidos e se tornando um hino de resistência, apesar de atrair a atenção da polícia, que a perseguiu por expor essas realidades.

Como mulher, ela rompeu barreiras em uma indústria musical dominada por homens, enfrentando machismo e preconceito até no próprio círculo de músicos. Mesmo em romances conturbados, que às vezes geraram situações de violência e sofrimento, ela usava sua vulnerabilidade como força, inspirando outras mulheres a seguirem sua trajetória.

Uma curiosidade fascinante é que Billie não tinha uma formação musical clássica e quase não lia partituras; sua arte vinha puramente de sua sensibilidade e da própria experiência de vida. Ela provou que a técnica nem sempre é o que define um artista, e sim a coragem de transformar a própria dor em voz. Lady Day não apenas deu ao jazz um rosto novo, mas também abriu caminho para a luta pela igualdade racial e de gênero, usando o microfone como sua maior arma.

Para quem quiser conhecer mais da história deste ícone, recomendo a HQ publicada pela editora Veneta, bem tocante, sucinto e explicativo. 

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Quando a expressão "menos é mais" ganha todo o significado.

Noell Oszvald - Untitled #7, 2014. Fonte: The Hulett Collection


Nascida em 1990, Noell Oszvald é uma fotógrafa e artista visual húngara que traz ao mundo da arte um trabalho que, de tão minimalista, quase grita. Isso mesmo. É impressionante como as suas imagens conseguem transmitir tanta intensidade com tão pouco.
O que chama a atenção na obra de Oszvald é o que ela deixa de fora. Em seus autorretratos, ela apresenta figuras solitárias em cenários vazios ou abstratos, com ênfase em linhas geométricas e composições cuidadosas. O uso do preto e branco é uma marca do seu estilo, e é justamente essa simplicidade que o torna tão distinto: ao olhar, você sente algo, mas não sabe exatamente o que. É como um convite para o espectador interpretar e dar significado ao que vê, fazendo com que cada foto se torne um espelho de nossos próprios sentimentos.

Noell Oszvald - Untitled #19, 2019. Fonte: The Hulett Collection




Muitos comparam Oszvald a Francesca Woodman, outra fotógrafa que explorava temas como identidade e isolamento. Woodman, conhecida por suas criações poéticas e cruas, também usava o próprio corpo como elemento central em suas fotos. Mas enquanto Woodman trazia movimento e a sensação de algo efêmero, Oszvald constrói um universo quase imutável, onde o silêncio parece palpável. A arte dela é calculada, quase matemática, mas ainda assim profundamente emotiva.

Noell Oszvald - Untitled #1, 2013. Fonte: The Hulett Collection
Um ponto curioso sobre a fotógrafa é que, apesar do sucesso e do reconhecimento, ela mantém um perfil discreto. Em vez de compartilhar sobre si mesma, prefere que o público encontre nas suas imagens o que quer ver (ou sentir). É como se ela nos dissesse: "A arte está aí, faça dela o que você quiser." Essa escolha de abrir espaço para a interpretação é, sem dúvida, parte do charme de suas fotografias, por isso de suas obras não terem títulos.

Noell Oszvald - Untitled #4, 2014. Fonte: The Hulett Collection
Noell Oszvald - Untitled #2, 2014. Fonte: The Hulett Collection


Noell Oszvald - Untitled #3, 2013. Fonte: The Hulett Collection
Noell Oszvald - Untitled #10, 2015. Fonte: The Hulett Collection





Se você ainda não conhecia a Noell Oszvald, vale a pena mergulhar no universo dela tão único, meticuloso e belo que nos faz refletir, inspirar e, claro, admirar. Mais fotos aqui, e o instagram da Noell. Sigam e apoiem esta artista incrível! ♡

segunda-feira, 11 de novembro de 2024


sábado, 9 de novembro de 2024

Summer In The City (1949) - Edward Hopper. Sou completamente apaixonada pelas obras deste artista que retrata de uma maneira tão bela e profunda a solidão.
Sempre fui fascinada pela filosofia e pelo ato de refletir sobre o mundo, o indivíduo e o coletivo — um caminho essencial para compreender a vida e, especialmente, a mim mesma. Esse processo de autoconhecimento é infinito; cada momento oferece novas descobertas, ações e reações, formando um aprendizado eterno, e ultimamente venho tentado entender mais sobre a solidão.

Quem somos quando ninguém está olhando? Como nos relacionamos com nossa própria companhia, nos bons e maus momentos? A cada quebra de rotina, especialmente nas experiências de luto — seja o luto da morte ou da perda — retorno a esse espaço de reflexão. Essas situações me levam a questionar quem realmente sou, o que carrego comigo, o que sacrifiquei e o que recebi em troca. Como lidar com a ausência de quem fui ao lado de outra pessoa? Só eu posso responder a essas perguntas, pois apenas eu compreendo plenamente o que sinto e penso; esperar que alguém me entenda por completo é um erro.
Nos caminhos da vida, encontramos a nós mesmos repetidamente em mil disfarces. - Carl Jung
Recentemente, passei por mais um término de relacionamento amoroso, marcado por lágrimas, gratidão, culpa, raiva e uma sensação de desesperança. Dói, e dói muito — e essa dor, inevitavelmente, faz parte do amor. Viver essa dor é um processo de crescimento, desde que aceitemos senti-la. Amar alguém de verdade, não apenas com uma paixão passageira, exige coragem, ação (como diz bell hooks) e a aceitação dos altos e baixos que acompanham o amor.

Ah, bem melhor seria poder viver em paz
Sem ter que sofrer, sem ter que chorar
Mas tem que sofrer, mas tem que chorar
Mas tem que querer pra poder amar
— Vinícius de Moraes

É aí que entra a solidão, presente na minha vida mais vezes do que posso contar, e que se intensifica especialmente nestes momentos de rupturas abruptas. No entanto, é apenas ao aceitá-la que podemos explorar nossas profundezas e enfrentar o desconhecido — uma tarefa cada vez mais difícil, considerando que vivemos em uma realidade constantemente bombardeada por estímulos de socialização. A qualquer momento, posso falar e conhecer outra pessoa pelo celular, abafando esse processo de autoconhecimento e tentando seguir em frente.




Estamos imersos na chamada "modernidade líquida" de Bauman, em que tudo se torna volátil e superficial, inclusive aquilo que acreditamos ser amor. Amar de verdade hoje é quase um desafio; quem escolherá estar ao nosso lado quando é tão fácil substituir a presença de alguém quando às vezes é necessário um mínimo de esforço e comunicação para cuidar deste sentimento? E reforço a palavra presença, pois as pessoas em si são insubstituíveis. Cada um é composto de fragmentos de todas as pessoas que passaram por sua vida, e é isso que nos torna interessantes de explorar e conhecer.

Cena do filme "Nostalgia" de Andrei Tarkovsky, um dos meus diretores favoritos, que retrata a solitude de forma tão poética. Inclusive recomendo este vídeo do mesmo falando sobre o tema, tem a tradução completa nos comentários.
Esses temores me assombram sempre que escolho me relacionar e permitir amar. Vi meus últimos relacionamentos terminarem como mercadorias com prazo de validade, rapidamente substituídas. Reflito, tento entender o que faltou, mas muitas vezes a resposta realmente não está em mim. Ainda assim, esses momentos me ensinam a valorizar a solitude e a não temer a solidão, ajudando-me a reconhecer, melhorar e a amar a mim mesma. Sei que nunca estarei sozinha enquanto souber acolher minha própria companhia, navegando entre as marés — às vezes calmas, outras vezes turbulentas — da minha própria existência.

Que minha solidão me sirva de companhia
E eu tenha a coragem de me enfrentar
Que eu saiba ficar com o nada
E mesmo assim me sentir
Como se estivesse plena de tudo

— Clarice Lispector

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